Um acorde e 4000 buracos

Considerações prévias (no espírito de Lucy no céu com diamantes).

Ninguém queria saber, embora todo mundo soubesse, que a Lonely Heart’s Club Band tinha vindo enterrar os Beatles. O fato de os quatro estarem presentes no funeral, bem al lado da coroa de flores vermelhas com o nome da banda, não mudava nada quanto ao essencial. Digo, quanto ao fato de tratar-se de um enterro. E que o militar tenha sido uma figura um tanto obscura –pouco se sabe sobre ele, e nada sobrou da sua passagem por este mundo, a não ser um retrato pintado a mão e a caricatura com a qubeatles-psicanalise-arte_ricardogoldenbergal foi satirizada a Banda dos CoraçõesSolitários na guerra contra os Blue Meanies. Em todo caso, supõe-se que tenha sido um militar de baixa patente do Exêrcito de Sua Majestade, o que não deixa de ser irônico, já que os Fab Four não apenas nunca esconderam um certo bairrismo “liddipoolense” contra a empáfia britânica, como John tinha devolvido à rainha a comenda recebida por serviços prestados à Coroa (Most Excellent Order of the British Empire), precisamente como protesto contra a participação militar da inglaterra em Biafra e o apoio aos EEUU em Vietnã. Fala-se, ainda, de uma séria rusga, intermediada por Ringo Starr, entre Lennon e James Bond, que se tornara um orgulhoso cavaleiro do império, mais ou menos na mesma época (honraria que Ian Flemming, seu Watson assumido, morreu desejando).

As aptidões de compositor e de regente do sargento Pepper (cujo nome de batismo não é conhecido) foram seriamente contestadas pelas mais diversas fontes. Houve quem dissesse que não passava de um testa-de-ferro de McCartney para açambarcar o espólio dos Beatles e, por isso, Lennon rompeu com ele em 73 (cf. How do you sleep at night?). George Martin disse-me que o homem não sabia ler uma nota de música, só que quando o interroguei sobre o que disso podia ser deduzido sobre os motivos da banda, o fleumâtico Sr. de longos anacrônicos cabelos alvos (na época de usar cabeleira, quando gerenciava os Fab Four, lá pelos anos sessenta, bem que era um almofadinha de gravata, cabelo curto e brilhantina) fechara-se em copas e não consegui tirar dele mais uma palavra. A carreira posterior da banda do sargento, se a houve, permanece um mistério até hoje. Parece que o elepê de 67 foi um hapax. Nada me surpreenderia, entretanto, que um dia algúm obscuro colecionador viesse a público com um mofado master tape e tenhamos o volume dois da Banda dos Corações Solitários anunciado pela Apple-Emi.

O elepê, como se sabe, acabou sendo creditado aos Beatles e foi um acontecimento que abalou o mundo pop, como o meteoro o dos dinosauros. Lembro do pessoal da California não saber muito bem o que fazer dele. Foi a causa do primeiro surto depressivo sério do Brian Wilson, que tinha pronto o Pet Sounds com The Beach Boys naquela época, e ainda hoje, quarenta anos depois, não para de repetir que o seu disco é o preferido de Paul McCartney! Já Johnny Rivers, melhor humorado, cantava no Markee de San Francisco seu Summer Rain (o disco foi lançado em junho: All summer long we spent dancin’ in the sand. And the jukebox kept on playin’ “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”(1), e Jimi Hendrix, recém chegado de Londres, conseguira um exemplar um dia antes do lançamento, e tocou de improviso, naquela mesma noite, no Fillmore, uma versão arrasa quarteirão da faixa título. Eu, que era um pirralho, me recordo deitado no chão da sala, tentando descobrir quem eram todas aquelas pessoas posando como membros do Clube dos Corações Solitários (Mae West protestou por estar na foto, achando ruim para a sua fama de femme fatale: mal sabia ela que seria melhor lembrada pela sua participação naquela capa que por todos os filmes que fizera), enquanto pretendia decifrar aquele ritornello que tocava para sempre no (não) final do lado A do bolachão (a Victrola não era automâtica), isto é, precisamente no final de A day in the life.

Em todo caso, o funeral dos Beatles vinha na esteira daquela estória de Paul is dead, a morte anunciada e ocultada de McCartney, que teria morrido num desastre em Tottenham Court e sido substituído por um sósia para aparecer em público. Enfim, todo mundo falava como se estivesse à par de um segredo de Estado que só ele soubesse, mostrando os indícios da morte do Beatle cifrados na letra da música que comento, e nas fotos de capa de este álbum e, de modo mais ostensivo, de Abbey Road, mais precisamente, na placa do fusquinha que explica que, caso fosse vivo, teria 28 anos. Ou seja, os Beatles continuavam brincando de assistir ao próprio funeral.

Ora, McCartney não apenas não morreu com 28, como viveu para fazer 64. E Lennon, antes de ser executado para valer por aquele havaiano patêtico, já tinha se suicidado para os fans duplamente. Primeiro, casando com aquela japonesa que, vamos e venhamos, era uma baranga pairando, vestida de preto, como uma assombração onde quer que o marido estivesse. E depois, decretando o fim do sonho que ajudara a sonhar (God is a concept by which we measure our pain […] I don’t believe in Beatles… […] The dream is over, what can I say?(2). Se bem que o tal sonho de paz e amor já tinha azedado quatro meses depois da apoteose de Woodstock; no festival de Altamont, quando os Rolling Stones (com Jagger fazendo o papel que era de Mickey Mouse na versão de Disney de “O Aprendiz de Feiticeiro”) tiveram seu momento fascista, contratando os Hell’s Angels como guardacostas e tropa de choque, como se não soubessem no que isso daria: a avant prémiere da “Laranja Mecânica”, na versão de Kubrick.

Note-se, continuando com o assunto de estar no próprio enterro, que a última apresentação de Lennon aconteceu 14 depois do seu falecimento; foi a sua gravação postuma com os Beatles, em 1994, de uma composição de 1972, Free as a bird. E por falar em últimas apresentações, cara, os ingleses são demais. A última vez que os Beatles tocaram ao vivo foi o improviso no teto da Apple. E não é que os vizinhos chamaram a polícia pelo barulho! Ringo disse que os bobbies foram a sua única decepção naquele dia. Ele esperava ser arrancado da bateria e arrastado até o camburão na frente das câmeras; em vez disso, os policiais chegaram polidamente para pedir que abaixassem um pouco o volume que, enfim, os Srs. compreendem, os vizinhos não apreciam a música… Não é inacreditável? Os Beatles estão tocando ao lado do teu escritório e, em vez de ajoelhar para agradecer a dádiva, você liga para a polícia fazer eles pararem por perturbar a paz pública. Indeed!

Antes do acorde

Vamos ao que interessa. Comecemos, como se deve, pelos créditos:
John Lennon – voz, violão de aço, guitarra, piano (último acorde), letra
Paul McCartney – voz, piano, baixo, outra letra
George Harrison – maracas
Ringo Starr – bateria, piano (último acorde)
George Martin – órgão
Mal Evans – relógio despertador, piano (último acorde)

A day in the life consiste, basicamente, no maior acorde jamais tocado e na observação de que para encher determinado teatro de Londres precisa-se de 4000 buracos. O tema musical pode ser pensado como um daqueles sonhos que a gente faz quando acabou de tocar o despertador, mas preferimos continuar dormindo e, em vez de acordar, sonhamos que estamos, por exemplo, vestidos e pegando o ônibus para o trabalho.

“Um dia na vida” é na verdade a costura de duas músicas diferentes mediante um intervalo orquestral de 24 compassos. A primeira parte consiste na crônica de duas notícias que John leu, no Daily Mail, enquanto tomava o café da manhã. Uma, sobre a morte de Tara Browne, um playboy, amigo da banda, herdeiro da fortuna Guinness e filho de um Lorde, que se espatifara no seu Lotus Elan a duzentos km/h, enquanto fazia gênero para uma modelo pelas ruas de Londres.

He blew his mind out in a car,
He didn’t notice that the lights had changed,
A crowd of people stood and stared,
They’d seen his face before,
Nobody was really sure
If he was from the House of Lords (3).

A outra, uma proposta da prefeitura da cidade de Blackburn, no município de Lancashire, de tampar 4000 buracos (pot-holes) das suas ruas.

I read the news today, oh boy!
4000 holes in Blackburn Lancashire,
and though the holes were rather small, they had to count them all.
Now I know how many holes it takes to fill the Albert Hall (4).

Em 1992, o manuscrito original de Lennon foi leiloado por US$87.000

A parte de McCartney consiste numa pequena peça de piano que ele estava trabalhando na véspera, contando a história de um empregado cuja rotina o levava a entrar em devanéios. É de Paul, também, a linha que tanto deu o que falar, em relação ao tema das drogas: I’d love to turn you on. Ao ponto de a BBC decidir censurá-la sine die da sua programação (5). Já a imbecilidade coletiva dos EEUU posterior a 11 de setembro de 2001 superou a si mesma: recomendou banir esta música dos rádios devido à menção do acidente, que poderia ferir a sensibilidade do público americano! Quanto ao fragmento que segue ao despertador (que tocou acidentalmente durante a gravação e foi deixado lá): “wake up, fell out of bed, drag a comb upon my head”, Paul explica: “Era eu lembrando como era sair correndo para pegar o ônibus de manhã para ir à escola, fumar um cigarro e entrar na classe”. Depois vem um intervalo coral sem letra, também composto por McCartney, e que foi usado em 1970 por Deep Purple, no seu primeiro single, Hush.

O acorde

Musicalmente, a história é conhecida já que começou aqui o pandemônio criativo e experimental que só arrefeceria no final da década seguinte. Esta peça é germinal para o rock sinfônico e para os efeitos especiais de grupos como Pink Floyd ou Procol Harum, por exemplo. Especialmente, o que ficou conhecido como a “piração da orquestra” (An orchestral “freak out”) precisamente para resolver o problema de como costurar o tema de John com o de Paul (24 compassos de ligação). A indicação dada aos músicos da orquestra convidada era que deveriam tocar a nota mais baixa da escala, no seu instrumento, e ir aumentando até a mais alta. Concluindo o crescendo caótico da orquestra, a música termina com um dos mais famosos acordes finais na história da música. Lennon, McCartney, Starr, Martin e Evans tocam simultaneamente mi maior em três pianos diferentes. O som foi manipulado para ecoar até as últimas instâncias (um minuto), aumentando-se o volume de gravação a medida que o acorde ia se perdendo, para registrar até seu último suspiro, por dizer assim. No final do acorde, o volume estava tão alto que todos os outros sons do estúdio ficaram registrados ali para a posteridade, como a voz dos espectros. Sublime cacofonia. Impacto total.

Depois do acorde

Imediatamente depois de esvaecer-se o estrondo do acorde, foi inserida uma nota mais alta que o alcance do ouvido humano, porém audível para os cães. Iniciativa de Lennon para irritar o cachorro do dono do disco. Entretanto, apenas as primeiras 5000 cópias tinham este tom ultra-agudo inserido. Hoje, parece, foi restitutído na edição remasterizada. Não sei dizer, preciso conferir com o Gulliver, o golden retriever do meu filho.

O tom para os cães é interrompido pelo registro dos rumores dentro do estúdio de som, gravados de frente para trás e de trás para frente e misturados. Com este barulho de vozes se encerrava o lado A do disco, mas o sulco do vinil tinha sido tratado de tal modo que prendia a agulha, dando um efeito de disco riscado. O murmúrio, então, seria repetido para sempre num loop infinito, ou até o ouvinte acordar do seu sonho de alcool, ácido, heroína ou maconha, para levantar a agulha do pick-up da sua victrola.

Os teóricos da conspiração procuravam decifrar aqui a mensagem oculta do oráculo da contracultura, que diria a verdade sobre a verdade (ou ao menos, sobre a morte de Paul). Audível, segundo se dizia na época, apenas quando se tocasse o disco de modo reverso. Para isso seria necessário girar manualmente, como um DJ, o disco para trás a uma velocidade constante. Que houvesse ali qualquer recado intencional sempre foi negado pelos quatro. Em todo caso, este efeito é um modo de nos lembrar a realidade material do elepê, como um objeto com o qual era possível se fazer arte. La valeur du disque comme objet petit a, teria dito Lacan (se não abominasse dos Beatles). Todo isso se perdeu com o advento do cd, o que não impede que, de vez em quando, eu pare para imaginar uma cena noturna na qual este burburinho é o único som audível nas ruas de uma cidade deserta…

RICARDO GOLDENBERG

Texto escrito em homenagem aos 40 anos de Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band em março de 2007

________________________________________________________________

1 O verão todo o passamos dançando na praia. O som não parava de tocar “Sgt.Pepper’s Lonely Hearts club Band”.

2 Note-se que apesar de tal e tamanha manifestação de ceticismo, Lennon me saiu um deslumbrado por charlatanices esotéricas e outras besteiras, que deram em coisas como aquela temporada em India, com o gurú escroque, o Maharishi, ou a “terapia” com um Dr. Janov, que lhe tirava dinheiro propiciando o desabafo curativo do “grito primal”. Se vivesse, provavelmente se encantaria com a terapia de vidas passadas…

3 Pirou num carro / nem notou que o sinal tinha mudado / uma multidão se juntou a olhar / tinham-no visto antes / não tinham certeza se ele era um Lorde

4 Li as notícias hoje, cara / 4000 buracos em Blackburn Lancashire / embora os buracos fossem meio pequenos, tinham que contá-los todos / agora sabemos com quantos buracos encher o Albert Hall

5 “Adoraria te acender”, diz a passagem. “Ouvimos inúmeras vezes e analisamos a peça em questão e decidimos que era uma propaganda e um incentivo ao consumo de estupefacentes”. Os que escreveram este parecer, devem ter sido os mesmos que ligaram para a polícia a tarde da jam session  no terraço da Apple.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *