a morte da política

A diferença entre a inteligência e a estupidez é que a inteligência é limitada.

Roberto Campos

 

Por exemplo, se você chegou até “por exemplo”, isso quer dizer que atravessou a arrebentação do nome de Roberto Campos e talvez possa surfar com o autor altas ondas. Caso contrário, terá tomado um caldo por culpa da sua ideologia e permanecerá na praia. Nunca saberá se perdeu ou não alguma diversão. Mas o autor poderia ter escolhido outra epígrafe. Poderia ter optado por esta:

Duas coisas são infinitas, o universo e a estupidez. E não tenho certeza quanto ao universo.

Albert Einstein

 

Diz mais ou menos o mesmo, e o texto ficaria sob o guardachuva da autoridade do grande sábio gentil, tranquilo como a água de uma lagoa sem vento. Por que então escolher o primeiro? Por dois motivos, é mais elegante e cria o problema que deseja pensar: a burrice ideológica.

Pensar a ideologia é possível, o que não é possível é um pensamento ideológico, visto que a ideologia é o não-pensamento; é a resposta pronta entrega, o sentido fixado de antemão. E pensar é sempre por em questão o sentido recebido, petrificado, fazer o percurso da resposta até a pergunta que lhe deu orígem, e que já não é mais colocada, pois toda resposta se basta. Responder é erguer um muro que nos proteja da angústia pela falta de sentido que espreita do outro lado. Na peça de Brecht, Galileu Galilei, o cientista diz para os teólogos que a verdade está sobre suas cabeças, basta olhar pelo telescópio. Eles respondem que não tem nada que ver, a verdade está na mão, escrita nos livros de Aristóteles. A ideologia é isso, a transformação de um pensamento vivo –o de Aristóteles– em um dogma morto. Um pensamento sustenta seu movimento das perguntas que habilita; o dogma é como a lama de Mariana, o depósito do lixo das respostas recebidas sufocando qualquer dúvida.

Mas a loucura, a loucura é imaginar que fazer política equivale a implementar uma ideologia. Se entendemos por política a administração de conflitos de interesse de grandes massas de gente, um programa ideológico equivale a impor uma solução unilateral para eliminar o conflito. Solução baseada num conjunto de ideias tido como o bem supremo ou a verdade absoluta, imposta pela força. É a morte da política. Cabe enfatizar, porém, que afirmar a burrice da ideologia não é fazer pouco dela. A ideologia é tão poderosa quanto é burra. E quanto mais estúpida seja, mais poderosa ela se torna. Uma frase como “é melhor estar errado com Sartre, que estar certo com Aron”, é de uma burrice espetacular. Pérola ideológica, afirma que morrer por uma causa faz desta uma causa justa. É a lógica que sustenta a ação política dos caras que morreram para matar os humoristas desarmados de Charlie Hebdo. Quem duvida que se trata de verdadeiros idealistas? Eu tenho horror dos idealistas, mas acredito, com Alain Badiou, que o único modo de nos defendermos deles é pensando-lhes a lógica. Rejeitá-los sem entender, é catastrófico; é se deixar vencer pelo terror e cair na debandada da manada frente ao ataque das onças.

A estupidez não é falta de inteligência, longe disso. A estupidez é uma paixão. Jacques Lacan diz que é uma das grandes paixões humanas, maior que o amor e o ódio. Ele a chama “paixão da ignorância”, e consiste em agarrar-se firme a um sentido para eliminar toda dúvida e qualquer pergunta. É uma piada definir o homem como “ser racional”, visto que a sua apaixonada burrice mostra a sua queda pelo irracional. Nesse sentido, diria, somos todos ideológicos, e a grande aposta seria ao menos não nos vangloriarmos disso para, quem sabe, começarmos a pensar um pouquinho as coisas fundamentais, sem tanto horror pelo abismo da angústia.

Advertência ao leitor atual e a leitores futuros:

Eu penso contra. “Penso contra”, no sentido em que se diz de alguém que se apoia contra uma parede. Não me apoiaria se a parede estivesse desmoronando. Cabe dizer isto para que se saiba que meus textos respeitam seus adversários. Não existiriam sem eles, e não teria graça nenhuma bater em cachorro morto.