A consciência negra do politicamente correto

No passado dia 24, uma coluna no jornal Folha de S.P., assinada por Fernando de Barros e Silva, tecia uma série de considerações a propósito de uma menina de cinco anos, provavelmente a sua filha, ter se referido ao dia da Consciência Negra como “Dia dos Morenos”. Esta pérola foi usada apenas para somar mais um exemplo ao que aquele jornal denomina, com feliz expressão, de “racismo cordial dos brasileiros”. Com o intuito de contribuir para que não se perca na paralisia do pensamento crítico provocada pelo vírus contraído nos Estados Unidos denominado “correção política”, proponho ao jornalista uma outra leitura do comentário da garotinha que, “na inocência do seu eufemismo involuntário, que provavelmente ouviu de alguém (inocente?), toca o nervo da questão racial no Brasil”.

Em primeiro lugar, por que fazer da menina a vítima da provável má fé de outrem? Por que não conceder-lhe a perspicácia natural das crianças em “sacar” espontaneamente o espírito de seu tempo? Em suma, por que não pensar que a criança diz isso da sua própria lavra, um pouco no espírito daquela outra, a do conto de Andersen, que disse: “Olha, mãe!, o rei está nu”? Se for este o caso, qual seria, então, a verdade que ela revela, com toda a inocência, ao rei iludido (que somos cada um de nós frente aos nossos filhos)?

Diria que se trata precisamente da impotência do “politicamente correto” de mudar as almas mudando-lhes a língua. Esta última tem boa memória e não se deixa “transpor” tão facilmente quanto o Rio São Francisco! Como experimento socio-antropológico, o esforço norteamericano das últimas décadas, de criar uma “novilíngua”, está demonstrando resultados catastróficos, como o alijamento da paquera ou das relações de ternura em público, subsumidas sob noções como “assédio sexual” ou “pedofilia”. Tentar transformar por decreto os negros (pretos?) em afrodescendentes parece o exercício de um platonismo às avessas que pretendesse fazer desaparecer a feiúra banindo a palavra “feio”. Os nazistas, mais pragmáticos, preferiram fazer desaparecer a idéia eliminando os feios. Orwell ri desde o além!

A coluna abaixo da que comento, escrita por outro Fernando (Rodrigues), trata do mesmo assunto, mas aborda as estatísticas do fenômeno. O articulista lembra a pesquisa que mostra que, em comparação com 1995, mais brasileiros hoje estão cientes de que a expressão metafórica que identifica bondade com brancura, quando aplicada aos negros, exprime o racismo inadvertido de quem a usa. Suponho que, assim desconstruída, os usuários de tal expressão terão doravante o cuidado de identificar pureza, limpeza e alvura apenas quando se trata de caucasianos, para não ferir associativamente as suscetibilidades de negros, pardos ou, enfim, morenos.

Entretanto, quando uma mãe fala para seu menino, que chora porque machucou o dedo: “Judiação, coitadinho!” será que ela lembra que o verbo “judiar” e seu substantivo derivado “judiação” —como sinônimo de impingir um dano, uma humilhação ou uma perversidade— tem a sua origem na perseguição aos judeus na Idade Média? A malhação de Judas permanece até hoje como a lembrança viva desta evocação ao povo deicida. Não, com certeza. Ela esta usando uma palavra que, na sua língua, exprime um sentimento de empatia e de compadecimento com o sofrimento do outro.

O que aconteceria se a comunidade “israelita” vier a propor uma lei ao congresso solicitando o banimento de tais expressões, alegando que perpetuam o anti-semitismo sub-repticiamente no Brasil? Já existe, no fim das contas, jurisprudência neste sentido. A palavra “polaco” foi riscada oficialmente da nossa língua culta e se nos fez engolir o intragável galicismo “polonês”, cuja missão era apagar a memória das “polacas”, as escravas brancas (judias, na sua maioria) trazidas da Europa central sob falsas promessas de casamento ou emprego para trabalhar de prostitutas no porto de Santos. Qual seria o resultado de tal reivindicação? Que a reclamação mesma teria o efeito de fazer reentrar em cena o significado arcáico e os velhos ódios, expulsando o significado atual e os afetos de ternura que lhe estão associados na língua falada. A própria comunidade judaica teria feito entrar pela janela a segregação que pretendia expulsar pela porta.

E que dizer da palavra “trabalho”, que se origina em tripalium, instrumento de tortura dos antigos romanos reservado aos seus escravos? Deveríamos solicitar, aproveitando a reforma ortográfica, que seja expurgada da língua portuguesa a palavra e junto com ela o ministério correspondente, já que se trata da herança nefasta de uma escravidão ainda mais antiga da que aqui se denuncia e que faz com que “exigir trabalho digno”, por exemplo, seja não apenas um contrasenso como, literalmente, pedir para ser bem torturado.

Se não estivéssemos tão ofuscados pela insensatez de uma política cuja finalidade é aliviar nossa sociedade de sua consciência de culpa, neste caso, mediante estratégias platônicas tomadas pelo avesso, como já disse, poderíamos perceber que nomear o dia da comemoração da suposta tomada de consciência dos negros de sua dignidade humana como “Dia da Consciência Negra”, parece um ato falho a nos lembrar, com zombeteira ironia, que também se está dizendo, no mesmo sentido em que se fala de Setembro Negro ou mercado negro, que se trata aqui da consciência pesada dos brancos.

A consagração precisamente do racismo que se pretende combater.

Ricardo Goldenberg

Artigo escrito, em 2008, para a Folha de São Paulo (não publicado).

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