Apócrifos

García Marquez está morrendo. Mas, oh vanitas!, nem pela obra nem pelo Nobel considerou-se dispensado de convocar uma coletiva de imprensa para renegar de um poeminha denominado Marionete, que circula na www como seu testamento literário: “O que pode me matar não é o câncer, mas a vergonha de que alguém acredite que eu tenha escrito uma coisa tão cafona.” ‘Tá bom, Gabo, não será dessa vez que terminarás num quadrinho na parede da cozinha, como Borges com o poema instantes (1) . Ou num marcador de livro, como os ensinamentos do mago Paulo Coelho, que não me surpreenderia se fossem lidos na calada da noite por muitos empenhados durante o dia na sua execração pública.

Como sabemos desde a roupa nova do rei nú, basta pôr um vinho medíocre na garrafa de um Grand Cru para arrancar sinceros elogios da maioria de nossos convidados que posam de connaisseurs. Em Five easy pieces, de Bob Wolfenson, um pianista replica para uma ouvinte que elogiara sua comovedora interpretação: “Que polidos! Eu fingi um pouco de Chopin e você, a emoção adequada.”

Em todo caso, acho menos simpática a vaidade arranhada do Grande Escritor Colombiano que a contrição do palhaço mexicano Johnny Welch, de cujo livro Lo que me ha enseñado la Vida foi retirado o poema em questão: “Respeito sua opinião, é válida. Não sou letrado ou alguém que estudou Filosofia ou Letras, sou um ser humano com a necessidade de comunicar o que sente e não sei se faço isso bem ou mal, sei que faço com o coração.”

Que estes apócrifos piegas, cafonas e mal escritos seduzam a tantos, incluindo-se muitos que se reputam letrados, deve-se à mesma razão pela qual os livros de Paulo Coelho são os mais vendidos da história da França (o que pode ser constatado com admiração, espanto ou inveja: depende). Oferecem alguma transcendência, algo de grandeza, talvez uma pitada de sensibilidade. Uma Causa Superior, enfim, que nos enobreça neste mundo cão. E tudo sem esforço, prêt-à-porter, sem a ascese que a disciplina religiosa exigiria nem o trabalho cobrado do leitor pela boa literatura. E, sobretudo, sem mexer uma vírgula sequer nos preconceitos ou valores recebidos, nem objetar nada às verdades de sempre que fazem com que nos emocionemos com nós mesmos até as lágrimas.

É uma questão de educação, aprender a gostar da tarefa de ouvir uma composição mais rica e complexa, ler um livro que não cede facilmente à estética que chamamos popular porque nos devolve a própria imagem de modo a podermo-nos reconhecer nela sem angústia. Mas a arte, como a filosofia e a ciência, exige um certo esforço, e tenho certeza que a vergonha do Grande Autor Colombiano, que o levou a desautorizar desde seu leito de morte aquele poeminha que diz que a vida é bela e eu sou bom,  deve-se à sua descoberta de que as pessoas podiam dar-se ao luxo de descansar da tarefa de terem bom gosto graças a seu renome e isso… isso é inadmissível, oras!

                                                      SP, setembro de 2000

Ricardo Goldenberg

Psicanalista

 

Texto inédito, escrito para o jornal Folha de São Paulo, nunca publicado.

 

(1) Renegado oficialmente pela Kodama, mas no qual o mínimo leitor de Borges reconheceria a ausência do estilo do argentino (isto posto, devo reconhecer que nada é mais imitável que um estilo inimitável)

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